Wednesday, January 18, 2006

O melhor de 2005


Revelações tardias


Sei que estamos já a terminar o primeiro mês de 2006, mas não resisti a eleger alguns dos meus melhores companheiros do ano de 2005: discos e filmes. São apenas alguns eleitos, que gostava de partilhar com todos os que aqui chegarem.


Discos:
Patrick Wolf
Wind in the Wires


Editors
The Back Room


Sufjan Stevens
Illinoise


Antony & The Johnsons
I am a Bird now


Andrew Bird
The Mysterious Production of Eggs




Filmes:


Broken Flowers
Jim Jarmush


Charlie and the Chocolate Factory
Tim Burton




Aurora


Silêncio ensurdecedor






Dizer que este é o filme mais belo do mundo parece-me um exagero, mas não será um crime dizer que esta Aurora, ocorrida no ano de 1927, permanece na caixa de jóias cinéfila como uma das suas maiores pérolas.


Num tempo onde a maquinaria dos efeitos especiais não tinha ainda a maior quota-parte no fabrico de um filme, Murnau surpreendeu o mundo com uma realização enérgica, fantasista e tenebrosa, onde para o belo florir há que arriscar a travessia do inferno.


Embalados por uma banda sonora ainda a respirar uma atmosfera draconiana, os grandes planos de Murnau ganham o poder de palavras de ordem, proferidas num silêncio musical.


Aliás, para quê palavras quando o melhor da vida se revela por detrás de uma insonoridade ensurdecedora?



Tuesday, December 27, 2005

God Save Jarmush


Flores Vivas





Jim Jarmush não é um vendido!


É o que me apetece dizer depois de assistir a Broken Flowers e de abandonar o cinema com um sorriso nos lábios, agradecendo a quem ainda faz dele uma janela para o mundo e uma ponte para as histórias verdadeiras que nos acompanham ao longo da vida.


Jarmush nunca foi um contador de histórias felizes. De Night on Earth a Ghost Dog, de Dawn by Law a Dead Man, visitando também Coffe and Cigarettes, os sentimentos predominantes andaram sempre à volta dos planetas nostalgia e inevitabilidade, derivando por entre chuvas de meteoritos pouco amistosos.


Em Broken Flowers trata-se de uma revisitação ao passado e de como, por vezes, esse mergulho tardio nos transforma ao mesmo tempo que se apresenta distante e irrecuperável.


Brilhante Jarmush, brilhante. Há filmes assim, que deviam ser vistos para que a alma se erguesse para além das nuvens, cinzentas e de todas as cores.


Tuesday, September 07, 2004

Scissor Sisters


Uma Valente Tesourada na Pop Music





Oriundos de Nova York, os Scissor Sisters são a banda de quem mais se fala neste ano de 2004. Com um som que lembra uma orgia musical no seu melhor e o culto por uma imagem glamorosa mas muito pouco fashion, os Scissor atravessaram os Estados Unidos para tomar a Europa de assalto.


Com o nome retirado de um kamasutra lésbico ainda sem edição entre nós, os Scissor Sisters despontaram em 1999 quando o vocalista Jake Shears se cruzou no caminho de Baby Daddy, um multi-instrumentalista sobredotado. Mais tarde 3conheceram Ana Mantronic, uma performer que ficou de dar o corpo e a voz ao manifesto nas actuações ao vivo. Com a entrada de Del Marquis para as guitarras e de Patrick Seacor para a bateria, o quinteto fez a sua primeira aparição ao vivo por volta do ano de 2001.


De bares de strip e antros de saudável depravação aos palcos de grandes festivais foi um passo de menina, que atravessou dois continentes divididos por um oceano gigantesco. Riffs de guitarra desalinhados, sintetizadores trémulos e loucos, relances de Bowie em período dourado, tiques de teatro da época burlesca, mostras de uma ópera-rock renovada e fotografias de um cabaret do tamanho do mundo, tudo os ajudou na tarefa máxima de voltar a colocar a Pop Music no topo do mundo.


Falar de influências na música dos Scissor Sisters é como confeccionar uma gigantesca salada musical: quilos de falsetes à la Bee Gees (Confortably numb, Tits on the radio), molhos de pianolas elton johnicas (Laura, Take your mama out), punhados de beats dos primórdios do movimento de dança (Filthy/Gorgeous, Lovers in the backseat), influências da música negra e branca dos setentas e oitentas há muito banidas das rádios americanas (Mary, Return to Oz). A todas estas pilhagens passadistas juntaram uma criatividade sem regras, que ultrapassa e se torna melhor que qualquer referência ou fonte de inspiração. Porque, há que dizê-lo, os Scissor Sisters representam tudo menos uma banda retro. Com eles somos levados a olhar para um futuro radioso, à medida que avançamos para a frente sem nunca sermos tentados a olhar para trás.


Falar de boa música pop, daquela que sobrevive a gerações de críticos, mudanças de humor e alterações climatéricas, significa correr riscos. Que bandas como os Pulp, os Divine Comedy ou os The Magnetic Fields nunca deixaram de correr. E que riscos correm os Scissor Sisters neste seu primeiro longa duração: do nome lésbico aos falsetes no limite de Shears, passando por batidas que inevitavelmente colidem com reminiscências de celebrações gay, os Scissor chegam a nós rodeados de todo o aparato.


Esta banda faz com a Pop Music aquilo que Baz Lurhman (Strictly Ballroom, Romeo and Juliet, Moulin Rouge) tem vindo a fazer em filme com o género musical: despiu-lhe o fato de gala antiquado, desligou a grafonola já riscada e transformou tudo num verdadeiro cabaret onde todos os sonhos acontecem.


Com Scissor Sisters, o quinteto nova-iorquino mostra que uma boa canção pop atinge a sua plenitude quando se usam todas as armas, artimanhas e truques, não deixando que nada, mas mesmo nada, se intrometa no caminho. São por isso uma banda sem-vergonha, inconformista e irreverente, no ténue limite entre o flop e a genialidade, no lugar onde nascem os momentos que fazem andar a história.


O cover de Confortably Numb, dos Pink Floyd, é exemplo de como a banda procurou atravessar as fronteiras do universo pop. Ao invés de optarem por uma abordagem de devoção, onde o risco de alterações ao original é mínimo, os Scissor transformaram uma música melosa e esquecida no tempo num hit moderno, onde os Bee Gees encontram os Frankie Goes to Hollywood numa pista de dança dos anos setenta suspensa sobre o planeta. Aliás, de que serve fazer um cover de uma música se a vamos deixar da mesma maneira, ou apenas dar-lhe alguns retoques de maquilhagem?


Scissor Sisters está recheado de possíveis singles, pois cada canção é confeccionada com o saber culinário de gerações. É um disco marcadamente pop que abraça sentidamente a dança, sem nunca deixar de lançar ao rock piscares de olho furtivos. Deveria ter recebido um autocolante do género Parental Advisory Explicit Non-Stop Dancing Feet Anthems, já que o risco de contaminação musical é bastante elevado, mesmo para aqueles que sentem relutância em abanar o pé ou que torcem o nariz a qualquer despontar ou elevação da causa gay.


Numa sociedade que caminha desenfreadamente rumo ao ideal de globalização, os Scissor Sisters mostram-nos o que é ser freak em 2004, e celebram-no de uma forma contagiante. É uma batida que atravessa classes sociais, idades, uma celebração do multiculturalismo tanto musical como da própria vida. E, só por isso, deverá ser considerado como um dos maiores momentos musicais deste ano de 2004. A Pop Music atingiu um pico glorioso.


Links Úteis:

http://www.scissorsisters.com = site oficial da banda.
http://www.franzferdinand.org = confiram, na secção audio, o cover que os Scissor fizeram para Take me Out, dos Franz Ferdinand.